public marks

PUBLIC MARKS from tadeufilippini with tags "concreta poesia" & esquecimento

18 April 2008 02:00

decio pignatari - O LOBISOMEM

O LOBISOMEM O amor é para mim um iroquês De cor amarela e feroz catadura Que vem sempre a galope, montado Numa égua chamada Tristeza. Ai, Tristeza tem cascos de ferro E as esporas de estranho metal Cor de vinho, de sangue e de morte, Um metal parecido com ciúme. (O iroquês sabe há muito o caminho e o lugar Onde estou à mercê: É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura, Passando por entre uns arvoredos colossais Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão.) Outro dia senti um ladrido De concreto batendo nos cascos: Era o meu Iroquês que chegava No seu gesto de anti-Quixote. Vinha grande, vestido de nada Me empolgou corações e cabelos Estreitou as artérias nas mãos E arrancou minha pele sem sangue E partiu encoberto com ela Atirando-me os poros na cara. E eu parti travestido de Dor, Dor roubada da placa da rua Ululando que o vento parasse De açoitar minha pele de nervos. Veio o frio com olhos de brasa Jogou olhos em todo o meu corpo; Encontrei uma moça na rua, Implorei que me desse sua pele E ela disse, chorando de mágoa, Que era mãe, tinha seios repletos E a filhinha não gosta de nervos; Encontrei um mendigo na rua, Moribundo de fome e de frio: «Dá-me a pele, mendigo inocente, Antes que Ela te venha buscar.» Respondeu carregado por Ela: «Me devolves no Juízo Final?»; Encontrei um cachorro na rua: «Ó cachorro, me cedes tua pele?» E ele, ingénuo, deixando a cadela Arrancou a epiderme com sangue Toda quente de pêlos malhados E se foi para os campos de lua Desvestido da própria nudez Implorando a epiderme da lua. Fui então fantasiado a travésti Arrojado na escala do mundo E não houve lugar para mim. Não sou cão, não sou gente – sou Eu. Iroquês, Iroquês, que fizeste? Décio Pignatari Décio Pignatari nasceu em Jundiaí, São Paulo, no ano de 1927. Começou a publicar poemas na Revista Brasileira de Poesia, integrado no Clube de Poesia, de São Paulo, liderado por poetas críticos da Geração de 45. Em 1952 fundou o Grupo Noigandres, com Augusto de Campos e Haroldo de Campos, oferecendo um forte contribuo para a implementação da Poesia Concreta no Brasil. Tradutor de várias obras, foi um dos fundadores da revista Invenção. Colaborou em vários periódicos, foi professor de Semiótica, publicou ensaios e livros de poesia. Em 1977 reuniu a sua obra poética no volume Poesia Pois é Poesia.